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Crônica - Dia de Tiradentes - Manoel Messias Pereira

 



 



Dia de Tiradentes 

As ideias liberais, fomentadas pelo iluminismo que alicerçaram a Revolução Francesa, com os princípios políticos sociais a partir Montesquieu, Rousseau e Voltaire, considerados os germes do processo revolucionário burguês do Século XVIII na França, também foi o alimento ideal, que fizeram conspiradores no Brasil tanto na Inconfidência Mineira de 1789, quanto na Conjuração Baiana de 1798.

A chama do iluminismo também se ascendeu por aqui. Devido a mocidade brasileira que procuravam estudos na Europa, uma vez que na Colônia não havia universidade. Portanto as ideias que incendiaram os nossos conspiradores, nasceram dos sonhos dos letrados e entre os estudantes inflamados estavam José Joaquim da Maia, Domingos Vidal Barbosa, José Alvares Maciel e José Mariano Leal.

José Joaquim da Maia também era um entusiasta da Independência estadunidense e chegou a tentar contato com Thomas Jefferson, que acabou indo para a França de onde chegou a Ministro em Paris.

Mas foi num outro contato com John Gay, que o brasileiro tentou conversar no sentido de ter o apoio americano pra nossa independência. Mas Gay informou que respeitava o Brasil, mas não via uma pessoa capaz de dirigir o processo revolucionário por aqui. E acrescentava que no Brasil não havia imprensa e que os brasileiros acreditavam nos Estados Unidos como precursor, mas que segundo Tomaz Jefferson no Brasil, havia um ódio entre os portugueses e brasileiros. Em seguida há noticias da morte de José Joaquim Maia na Europa.

Tiradentes

"mártir da independência o herói da liberdade"


Na história do Brasil tínhamos os mestiços, os senhores seus escravos. Mas era justamente o servilismo que atravancavam o sentimento comum da ideia de independência. Em Vila Rica sufocava-se a elite, que já não conseguia atender aos anseios de Lisboa em relação a quantidade de ouro que propunham a Metrópole. Com isto vão unir as classes médias urbanas de Minas Gerais entre elas os padres, militares, estudantes, poetas, advogados, proprietários de terras. E foi desta forma que o alferes Joaquim José da Silva Xavier chamado de Tiradentes,(ex-mascate e dentista) vai surgir como um ser humano mais humilde entre todos. Longe do foco revolucionário enviaram ao Rio de Janeiro lavrando com isto sua sentença o que a realidade mais tarde confirma. E diante da opressão que Minas Gerais vivia com a opressão tributária, cobranças acompanhadas de violências, e a ideia da glória possibilitou Tiradentes de publicamente assumir o descontentamento e a contestar o domínio português.

Tiradentes de princípio encantou-se com as ideias iluministas revolucionárias e começou a deslumbrar a possibilidade de uma revolta armada. E iniciou a propagação destas ideias em Vila rica e adjacências. Tiradentes acabou sendo posto como o líder popular do movimento. E assim apresentou um projeto de reformas revolucionárias tais como:

a) proclamação de uma república com a capital em São João del rei

b)convocação militar obrigatória de todo cidadão em caso de necessidade

c)criação de industrias têxteis e siderúrgica livre da interferência do governo

d) Criação da primeira Universidade brasileira em Vila Rica

e)Concessões de pensões às famílias numerosas e pobres

f)doação de terras às famílias pobres como estímulo ao crescimento da população agrícola

g) eliminação dos monopólios

h)adoção de uma bandeira com dizeres Libertas quae sera tamem que quer dizer Liberdade ainda que tardia.

Entretanto a problemática maior de relevância social "o processo escravocrata em curso no Brasil", não havia interesses e desagradava os ricos proprietários . Essa foi uma ideia descartadas por todos.

Esse movimento que reunia-se na maçonaria foi o movimento da Elite para a elite. E o número de poetas que figuravam entre os chefes conspiradores dava um caráter de elevação intelectual e que em outras revoluções ficam apenas subentendidas. Ente esses intelectuais tivemos Claudio Manuel da Costa, um erudito e suave poeta a modo de Petrarca e de gênio sombrio e melancólico e que segundo o historiador João Ribeiro, suicidara na prisão sem esperar o desfecho da tragédia. Embora estudos recentes já demonstram que Claudio Manuel foi sim assassinado após sua prisão,morto por enforcamento na casa dos Contos.

O movimento armado deveria eclodir no dia da nova derrama, já oficialmente definido, porém havia fragilidades no plano, a infra estrutura militar e bélica não havia e somente na última hora é que Tiradentes vai até ao Rio de Janeiro pra se armar. Além da falta de apoio popular.

Joaquim Silvério dos Reis denuncia toda a conspiração a Lisboa o que foi confirmado por Correia Pamplona e Brito Malheiros. O que leva o governador Luís Antônio Furtando de Mendonça a agir com rigor, prende-se Tiradentes e prende-se Claudio Manuel da Costa.

Todos os outros envolvidos negam participação na Conspiração mas Tiradentes assume toda a culpa. Como o único ideólogo do movimento.

Em 19 de abril de 1972 entrava na cadeia pública do Rio de Janeiro, rodeado de outros ministros da justiça, o desembargador Francisco Alves da Rocha para ler a sentença aos réus que desde da noite da véspera havia sidos transferidos de vários lugares em segredos para essa chamada sala do Oratório. eram onze os criminosos que esperavam algemados e cercados. A leitura durou duas horas, e foi cercadas de citações eruditas e todos os infames foram condenados a forca.

Quando o desembargador se retirou todos pediram perdão e clemência, porém Tiradentes assume toda a culpa. E o mesmo ministro que horas antes leu as sentenças perdoa a todos e anuncia a clemencia real de D. Maria I.

Tiradentes no dia 21 de abril entrou na sua cela o algoz para vestir -lhe a alva, e ao despir-se dizia o mártir que o "Redentor" morrera por ele também nu".

A cidade estava toda aparelhada para a grande festa em honra e divindade do governo supremo aos sons das marchas das fanfarras, procissões frente a cadeia pública em ato declarado fúnebre, com a Irmandade da Misericórdia e a sua colegiada e esquadrão de cavaleiros da guarda real do vice-rei. A espera do réu que saiu com o crucifixo nas mãos e subiu ligeiramente e pediu ao carrasco que não demorasse. E depois do Credo, a um frêmito de angustia da multidão, viu cair suspenso das traves o cadáver do mártir.

Após o suplicio, um dos religiosos falou, tomando o tema do Eclesiastes: In cogitatione tua regi ne detralhas. . . quia aves coeli portabunt vocem tuam. Não a traições a teu rei nem em pensamentos, as mesmas aves levar-te-iam o sentido deles.

Manoel Messias Pereira


cronista, poeta, professor

Membro do Coletivo Negro Minervino de Oliveira

Membro da Academia de Letras do Brasil

São José do Rio Preto - SP. Brasil




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