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Artigo - As 11 enfermeira negras com histórias resgatas por Coletivo da USP

 


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Conheça 11 enfermeiras negras com histórias resgatadas por coletivo da USP

Coletivo negro da Escola de Enfermagem da USP pesquisou as trajetórias de mulheres negras que tiveram papel fundamental para a enfermagem, mas que tiveram suas histórias apagadas

  Publicado: 02/04/2026 às 15:16

Texto: Evelyn Rodrigues*

Arte: Thiago Quadros

Colagem de fotos com borda branca de 11 enfermeiras negras em fundo vermelho.

Da jamaicana Mary Jane Seacole à professora Sônia Barros, passando por Dona Ivone Lara e Mãe Stella de Oxóssi, são muitas as contribuições das mulheres negras à enfermagem

Arte: Thiago Quadros / Fotos: Wikicommons; Researchgate; Revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos; Sociedade Amigos do Bairro Santa Angelina; Reprodução/Instagram; Marize Castro; UFF/Rosalda Paim; Currículo Lattes; EE USP


Em diferentes contextos históricos, a enfermagem contou com mulheres negras essenciais para a área, mas com contribuições pouco reconhecidas. Histórias de enfermeiras de guerra, pioneiras em pesquisas e gestoras de instituições são pouco registradas, evidenciando a necessidade de iniciativas que resgatem essas trajetórias e ampliem sua visibilidade.


Diante dessa situação, o Coletivo Negro Sônia Barros, formado por estudantes da Escola de Enfermagem (EE) da USP, desenvolveu a exposição Enfermeiras negras: o que você não vê nos livros. A mostra apresenta as biografias de 11 enfermeiras negras e é resultado de uma pesquisa iniciada em 2024. A ideia surgiu pela iniciativa do coletivo em conjunto com a disciplina Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiátrica, ministrada pela professora Jaqueline Lemos.




À frente da pesquisa está Matheus Pereira dos Santos, recém-formado em enfermagem e um dos fundadores do coletivo. Ele relatou a dificuldade de encontrar conteúdo sobre as trajetórias dessas e de tantas outras enfermeiras negras que fizeram contribuições importantes. São raras exceções aquelas sobre as quais já existe bibliografia. Na grande maioria dos casos, pouco era encontrado sobre os feitos em vida dessas mulheres. 



Foto em grupo de alunos e especialistas em enfermagem, reunidos em frente a um prédio

Aula aberta organizada pela professora Jaqueline Lemos abordou o tema dos marcadores sociais das desigualdades na saúde mental e contou com a presença de representantes da Articulação Nacional de Enfermagem Negra (Anen), de trabalhadores do SUS do Kilomboeste e de integrantes do coletivo negro da EE – Foto: Coletivo Negro Sônia Barros

A primeira versão da mostra fez parte de um evento na Semana da Consciência Negra de 2024. Percebida a relevância do material, em novembro de 2025 foi realizada uma nova exposição, dessa vez no Centro Histórico-Cultural da Enfermagem Ibero-Americana (CHCEIA), localizado dentro da EE. A ação também foi produzida para a Semana da Consciência Negra.


Essa segunda exposição foi organizada pelo professor Rodrigo Almeida Bastos, docente na EE e coordenador acadêmico do CHCEIA, e por Fábio Soares de Melo, enfermeiro egresso do Programa de Pós-Graduação da EE, que atua no centro desenvolvendo atividades e produção de conteúdos.


Apesar de ter nascido como uma exposição temporária, atualmente o material sobre as mulheres continua exposto no centro. O professor Rodrigo Almeida Bastos afirma que há planos para aumentar a curadoria:


 “Já existia uma demanda no CHCEIA para ampliar a abordagem étnico-racial nas exposições permanentes, com iniciativas como busca de financiamento para inclusão de manequins, objetos e imagens que representassem melhor a população negra. Esses financiamentos já foram solicitados e estamos em meio aos trâmites burocráticos de análise pelas agências de fomento”.



Exposição com textos impressos e objetos em uma vitrine de vidro.

Exposição “Enfermeiras negras:o que você não vê nos livros” no CHCEIA – Foto: Arquivo/Fábio Soares de Melo

Enfermagem negra e saúde mental

A partir do debate trazido pela pesquisa, Jaqueline e Matheus iniciaram um novo estudo para identificar todos os alunos negros egressos da EE desde a primeira turma, de 1946. Eles têm o objetivo de entrar em contato com os enfermeiros identificados e abordar o impacto do racismo na saúde mental, seja durante a graduação ou na carreira profissional, de forma cuidadosa e sensível. A pesquisa também conta com a contribuição de Miria Pereira dos Santos e Gabriel Alves Santos, também estudantes da EE. 


Em entrevista ao Jornal da USP, todos relataram a dificuldade de identificar esses ex-alunos, que estudaram antes de a USP passar a registrar dados de autodeclaração racial, o que só aconteceu em 2018. Ressaltaram também que toda essa pesquisa tem sido auxiliada por Alva Helena, uma das homenageadas na exposição, e pela dissertação de mestrado Ser enfermeiro negro na perspectiva da transculturalidade do cuidado, de Bárbara Barrionuevo Bonini, defendida em 2010. 


Conheça, a seguir, as trajetórias de 11 enfermeiras negras que a pesquisa recuperou:


Pintura de mulher negra de cabelo curto e grisalho, usando lenço vermelho no pescoço e medalhas presas à roupa azul.



Retrato de Mary Jane Seacole, por Albert Charles Challen, 1869, National Portrait Gallery. O original foi descoberto em 2003 pela historiadora Helen Rappaport e comprado pela National Portrait Gallery de Londres em 2008 – Foto: Wikicommons

Mary Jane Seacole

1805-1881


Nascida na Jamaica, Mary Jane Seacole era filha de mãe jamaicana e pai escocês. Considerada grande pioneira da enfermagem, Mary possuía conhecimentos de medicina com ervas e ajudou no tratamento de epidemias na região da América Central e do Caribe. Durante a Guerra da Crimeia, que ocorreu entre 1853 e 1846, ela se candidatou ao programa de Florence Nightingale, conhecida como fundadora da enfermagem moderna, mas sua ajuda foi negada. Apesar da negativa, Mary conseguiu arrecadar fundos para financiar sua própria enfermaria próxima à batalha e ajudou a cuidar dos soldados durante a guerra. Em 1857, publicou sua autobiografia. Hoje, Mary Jane é homenageada com uma estátua no Museu Florence Nightingale, em Londres.


Fotografia antiga em preto e branco de mulher negra



Maria José Bezerra, a Maria Soldado – Foto: ResearchGate

Maria José Bezerra

1885-1958


Natural da cidade de Limeira, no interior de São Paulo, Maria José Barroso foi conhecida em vida como Maria Soldado. Participou da Revolução Constitucionalista de 1932 como enfermeira de guerra da “legião negra”,  mas também integrou a linha de frente dos combates. Não recebeu nenhum mérito em vida e finalizou seus dias vendendo doces e salgados em frente ao Hospital das Clínicas de São Paulo. Seus restos repousam no Obelisco Mausoléu aos Hérois de 32, no Parque Ibirapuera, como forma de homenagem.


Foto antiga em rosa de mulher negra com cabelo curto



Lydia das Dores Matta – Foto: Revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos

Lydia das Dores Matta

1916-?


Filha de imigrante português e mãe negra brasileira, Lydia nasceu em Manaus, Amazonas. Formou-se na segunda turma da EE, em 1947, como bolsista do programa de enfermagem do Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp). O Sesp foi um programa criado a partir de acordo entre Brasil e EUA, durante a Segunda Guerra Mundial, para sanear regiões produtoras de matérias-primas. O programa também promovia o treinamento de profissionais de saúde por meio de bolsas. Lydia foi uma das primeiras mulheres negras a se formar no Brasil e enfrentou situações de racismo durante a graduação, junto a outras estudantes negras de sua turma, Josephina de Mello e Maria Lourdes de Almeida. Em 1956, foi nomeada diretora da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto e trabalhou como enfermeira no Senado Federal, onde foi a primeira enfermeira a ocupar um cargo na Secretaria da casa legislativa, colaborando com a construção da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben) em Brasília.


Foto antiga em preto branco de mulher negra com cabelo curto usando casaco



Maria de Lourdes Almeida - Foto: Sociedade Amigos do Bairro Santa Angelina

Maria de Lourdes Almeida

1917-?


Maria nasceu em Santarém, no Pará, e também se formou na segunda turma da EE, em 1947. Sua trajetória profissional foi marcada por destaque no Sesp, tendo sido chefe do Serviço Especial de Saúde de Araraquara, projetado pelo Centro de Treinamento da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Uma das primeiras bolsistas do programa, tornou-se referência na formação de novos profissionais. Atuou como professora e publicou artigos em revistas especializadas, como a Revista Anais de Enfermagem e os Arquivos da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP.


Foto em preto branco de mulher negra com cabelo curto e grisalho usando casaco

Josephina de Mello – Foto: Reprodução/Instagram



Josephina de Mello

1920-1995


Josephina de Mello nasceu em Manaus, Amazonas, e era filha de uma enfermeira obstétrica nascida em Barbados e de um funcionário aduaneiro brasileiro. Também integrou a segunda turma a se formar na EE, sendo bolsista do Sesp durante seus estudos. Posteriormente, trabalhou no Sesp, no Programa da Amazônia. Foi eleita para o cargo de Provedora da Santa Casa de Misericórdia de Manaus, além de tornar-se professora, vice-diretora e diretora da Escola de Enfermagem de Manaus. Em 1970, Josephina foi eleita Enfermeira do Ano pela Aben, em reconhecimento pelas suas relevantes contribuições. Diversas instituições hoje levam seu nome, em homenagem.


Mulher negra de cabelo curto e ruivo, usando roupa colorida e cantando com um microfone

Dona Ivone Lara – Foto: Wikicommons



Ivone Lara

1921-2018


Dona Ivone Lara nasceu no Rio de Janeiro e se dedicou durante 37 anos ao Ministério da Saúde como enfermeira e defensora do tratamento psiquiátrico humanizado. Estudou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com especialização em terapia ocupacional e implementou uma abordagem mais digna para tratamento de pessoas com problemas mentais, contribuindo para mudanças no sistema de saúde do País. Além de sua carreira na saúde, Dona Ivone também foi uma sambista de destaque, a primeira mulher a assinar um samba-enredo no carnaval brasileiro, ganhando o título de Grande Dama do Samba.


Mulher negra sentada usando roupa branca e verde, ao lado de um homem negro de terno, em pé. No fundo, uma parede cinza com detalhes vermelhos e amarelos

Mãe Stella de Oxóssi – Foto: Wikicommons



Maria Stella de Oxóssi

1925-2018


Conhecida como Mãe Stella de Oxóssi, Maria Stella de Azevedo Santos é natural de Salvador, Bahia. Destacou-se no incentivo à cultura e às tradições afro-brasileiras, realizando intercâmbios com a Nigéria e participando de conferências internacionais sobre o Candomblé. Formada em enfermagem pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), recebeu diversos prêmios e honrarias, incluindo a homenagem como Doutora Honoris Causa outorgada pela mesma universidade. Tornou-se membro da Academia de Letras da Bahia em 2013.


Fotografia em preto e branco de mulher negra de cabelo branco, virada de lado

Izabel dos Santos – Foto: Marize Castro

Izabel dos Santos



1927-2010


Formada pela Escola de Enfermagem Hugo Werneck, em Belo Horizonte, Izabel dos Santos nasceu em Pirapora, Minas Gerais. Enfermeira e educadora, pioneira na luta pela educação profissional em saúde, começou sua carreira no Sesp e foi consultora da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Idealizadora do projeto Larga Escala, que foi a base de formulação do Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem (Profae), seu trabalho focou na capacitação de trabalhadores de saúde sem qualificação profissional específica, influenciando diretamente políticas do SUS e promovendo uma formação inclusiva.


Foto antiga em preto e branco de mulher negra, de cabelo curto e preto, usando uniforme de enfermeira

Rosalda Paim – Foto: Universidade Federal Fluminense/Rosalda Paim

Rosalda Cruz Nogueira Paim



1928 – 2015


Natural de Vila Velha, Espírito Santo, Rosalda Paim graduou-se em enfermagem e pedagogia e se especializou nas áreas de pediatria, administração hospitalar e saúde pública. Teve expressão política significativa como a Primeira Enfermeira Parlamentar do Brasil, atuando como deputada estadual no Rio de Janeiro entre 1983 a 1987, e promoveu mais de 20 projetos de lei voltados à saúde e aos direitos humanos. Foi presidente da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben) de Niterói, na qual também ocupou a coordenação da Comissão de Educação.


Mulher negra com cabelo curto e ruivo, sorrindo e usando roupa branca em um fundo amarelado

Sônia Barros – Foto: Currículo Lattes



Sônia Barros

Homenageada com o nome do Coletivo Negro da EE, Sônia é graduada em enfermagem de saúde pública pela UFBA, com mestrado e doutorado pela USP. Atualmente, é professora sênior no Instituto de Estudos Avançados da USP e foi diretora do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Drogas da Secretaria de Atenção Especializada em Saúde do Ministério da Saúde. Sônia foca sua carreira em políticas de saúde mental e exclusão social de pessoas com doenças mentais na enfermagem. Em 2022, recebeu prêmios como a Medalha de Bronze Oswaldo Cruz e o Prêmio Nise da Silveira.


Mulher negra com cabelo grisalho sentada sorrindo, usando camiseta preta com detalhes amarelos.

Alva Helena de Almeida na aula aberta Marcadores Sociais das Desigualdades, Saúde Mental e Enfermagem – Foto: EE USP

Alva Helena de Almeida



Alva possui graduação e licenciatura em Enfermagem, mestrado em Saúde Pública e doutorado em Ciências, todos pela USP. Dedicou grande parte de seu tempo ao serviço público, trabalhando em hospitais e unidades de pronto-socorro. De 1991 a 2010, Alva trabalhou no Centro de Formação de Profissionais do SUS paulistano, atuando no planejamento e desenvolvimento de ações educativas e de materiais didáticos, contribuindo para a formação de profissionais de saúde em diferentes níveis. Em 2020, Alva, junto a outras profissionais, fundou a Articulação Nacional de Enfermagem Negra (Anen), com o objetivo de combater as desigualdades e o racismo que se perpetuam na enfermagem, além de promover ações para a inclusão e equidade no acesso à saúde.


*Estagiária sob supervisão de Silvana Salles


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