Unesp - Para especialista, ofensiva dos Estados Unidos e Israel contra o Irã não encontra respaldo nas regras internacionais.
Para especialista, ofensiva dos Estados Unidos e Israel contra o Irã não encontra respaldo nas regras internacionais
Professor em segurança internacional, Héctor Luis Saint-Pierre argumenta que ataque de norte-americanos e israelenses é ilegal porque o país persa ainda estava longe de construir uma bomba nuclear e, portanto, não representava uma ameaça aos seus algozes.

No último sábado, 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel iniciaram uma onda de ataques de grande escala contra o Irã, que resultou na morte do Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, além de outras autoridades do alto escalão do governo e militares. O objetivo da ação foi destruir o programa nuclear iraniano que, segundo norte-americanos e israelenses, estaria enriquecendo urânio para produzir armas nucleares.
O Irã nega as acusações e respondeu aos ataques lançando mísseis sobre Israel e sobre bases militares dos Estados Unidos localizadas no Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia e Emirados Árabes. Até a segunda-feira, 2 de março, mais de 500 iranianos já haviam morrido em consequência dos ataques.
Para o professor especialista em segurança internacional Héctor Luis Saint-Pierre, a justificativa de Estados Unidos e Israel para o ataque ao Irã é frágil e não encontra respaldo nas regras internacionais. “É claramente um ataque fora da legislação da Organização das Nações Unidas. Um ataque não provocado. O Irã não representava uma ameaça existencial nem aos Estados Unidos nem a Israel, uma vez que está muito longe de conseguir uma bomba nuclear”, afirmou o professor, citando uma declaração da Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA). Nesse sentido, avalia Saint-Pierre, não há margem para o argumento de que foi um ataque preventivo, tampouco esse tipo de ação está contemplada nas leis internacionais.
O docente e vice-coordenador executivo do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp destaca ainda que estavam em andamento negociações entre Estados Unidos e Irã a respeito do programa nuclear iraniano. Saint-Pierre menciona uma entrevista concedida na sexta-feira, véspera dos ataques, pelo principal mediador das conversas, o ministro das Relações Exteriores do Omã, Badr AlBusaidi, em que o diplomata havia demonstrado otimismo com o andamento do diálogo entre os dois países. “Todas as exigências solicitadas por Trump estavam sendo contempladas, inclusive a visita da AIEA, e também de técnicos norte-americanos”, explica o professor.
O professor menciona também que menos de uma hora após os ataques, houve uma resposta militar por parte do Irã, que mirou nas bases norte-americanas em diversos países na região. Para o especialista, a reação iraniana foi um elemento novo porque mostrou uma capacidade de organização que não havia sido observada no último conflito ocorrido entre os países, em junho do ano passado.
Para Saint-Pierre, ainda existe a possibilidade de diferentes desdobramentos para o conflito, entre os mais importantes está o impacto econômico que ele pode causar. Isso porque é pelo Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã, por onde passa diariamente cerca de 20% do consumo global diário de petróleo. Além disso, vários poços de petróleo e de refino da região estão ao alcance dos mísseis do país persa. Um ataque a esses alvos, argumenta o professor, poderia elevar sobremaneira os preços da commodity e causaria impactos relevantes à economia internacional.
Outra consequência do conflito mencionada pelo docente é estimular a adoção de armamentos nucleares por outros países. “O respeito que os Estados Unidos têm pela Coreia do Norte porque ela tem bomba atômica, eles não têm com países que têm condições de chegar até ela. Isso está despertando uma certa avidez por chegar ao armamento nuclear em outras potências médias que têm aspirações a gerir seu próprio desenvolvimento”, afirma o professor. “Mesmo no Brasil já se estão ouvindo posições favoráveis ao país procurar seu próprio armamento nuclear. Mas isso é assunto para um outro podcast”, finaliza.
Ouça a análise completa do professor Héctor Luis Saint-Pierre sobre as motivações dos ataques de EUA e Israel contra Irã e os possíveis desdobramentos do conflito:
Imagem acima: mulher caminha entre destroços após ataque sobre a cidade de Teerã (Crédito: Fotos Públicas)
02/03/2026, 18h51
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