Em janeiro de 1976, Manoel tinha 48 anos. Era mestre de linha de produção na Metalúrgica Mooca e morava no bairro da Mooca, em São Paulo, com a esposa, Tereza de Lourdes, e as filhas, Márcia e Aparecida. Levava uma vida discreta. Não era homem de armas. Recebia um jornal clandestino voltado à organização dos trabalhadores, algo comum num período em que direitos básicos simplesmente não existiam. Pensar coletivamente sobre o trabalho já era, por si só, tratado como um ato suspeito e comunista. Tudo virava comunismo. Manoel lia. E ler o que não era autorizado bastou para que seu nome entrasse numa lista.
Em 1975, os órgãos de repressão iniciaram a Operação Radar. O alvo era qualquer forma de organização considerada inconveniente ao regime. O método não distinguia lideranças de trabalhadores comuns. Quem conhecia alguém, caía junto. Manoel foi citado por um conhecido que, sob tortura, disse o que precisava para sobreviver. Nenhuma prova, nenhum flagrante. Apenas um nome dito numa sala fechada.
Na manhã de 16 de janeiro de 1976, dois agentes foram à Metalúrgica Mooca. Sem alarde, levaram Manoel para “prestar esclarecimentos”. Ele saiu do trabalho como quem resolve um mal-entendido. Nunca mais voltou. Foi conduzido ao DOI-CODI de São Paulo, na Rua Tutóia. Ali, o interrogatório não buscava verdade, mas nomes. Vieram os socos que fechavam olhos, os chutes que dobravam costelas, os choques elétricos que faziam o corpo perder o controle, a urina escorrer, os músculos se contraírem até o limite. Era a rotina de um sistema que não interrogava pessoas. Produzia corpos destruídos. E havia algo ainda mais perturbador nisso tudo. A naturalidade. A frieza. A sensação de que aqueles homens já não viam dor, mas procedimento. A agonia alheia não causava incômodo, causava método. O sofrimento do outro deixava de ser limite e passava a ser ferramenta. Não era só violência. Era uma forma obscena de desumanização, quase pervertida, em que o corpo do outro servia apenas para ser quebrado.
Na tarde do dia seguinte, 17 de janeiro, o Exército divulgou a versão final. Manoel teria se suicidado na cela usando um par de meias. Era o mesmo roteiro usado três meses antes, quando Vladimir Herzog apareceu morto no mesmo prédio. A repetição foi o erro. Não por escrúpulo, mas porque a farsa começou a comprometer algo maior.
A notícia chegou ao Planalto e irritou o presidente Ernesto Geisel. Não foi indignação moral. Foi cálculo político. Ele conduzia uma abertura controlada e havia determinado que mortes em dependências oficiais cessassem para evitar instabilidade. A linha dura desafiava sua autoridade. Manoel, um operário da Mooca, tornou-se o ponto de ruptura.
Dias depois, Geisel exonerou o comandante do II Exército, o general Ednardo D’Ávila Melo. Pela primeira vez, um oficial de altíssima patente caiu oficialmente por abusos cometidos sob seu comando. Manoel não viveu para ver isso. Sua morte virou peça numa disputa interna entre generais.
Enquanto Brasília ajustava engrenagens, Tereza enfrentava o horror. O caixão chegou lacrado. Ordens militares proibiam a abertura. Agentes cercavam o velório, alguns sentaram sobre a tampa. Ainda assim, familiares viram o corpo. Rosto desfigurado, hematomas, marcas de queimadura de cigarro, pulsos machucados. Nada sustentava o enforcamento. O corpo contava outra história. E Tereza nunca esqueceu.
No dia seguinte, agentes jogaram as roupas de Manoel na calçada, dentro de um saco de lixo azul. Foi recado. Tereza gritou que o haviam matado. Depois veio o silêncio. Por três anos, a família se calou por medo. Manoel não era famoso. O regime apostou no esquecimento. Errou.
Quando a viúva de Herzog conseguiu decisão judicial contra a União, Tereza decidiu agir. Com apoio da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, entrou com ação contra o Estado. Buscava verdade. Vieram os testemunhos de presos que ouviram os gritos de Manoel durante a tortura. Relatos de agentes falando em código, dizendo que “o omelete estava feito”.
Em 1980, a Justiça Federal reconheceu que o Estado era responsável pela integridade de Manoel sob custódia e condenou a União a indenizar a família. O documento decisivo demorou mais. Apenas em 2012, o atestado de óbito foi retificado. Onde antes se lia “asfixia mecânica por enforcamento”, passou a constar a verdade. Morte decorrente de maus-tratos sofridos durante interrogatório no DOI-CODI.
E talvez seja aqui que tudo pese mais. Escrever sobre isso dói. Dói pesquisar, dói ver, dói atravessar documentos e corpos sabendo que, além da violência em si, existe a indiferença posterior. Dói ouvir que “foi uma época tranquila”, como se tranquilidade fosse um dado coletivo e não um privilégio individual. Foi tranquila para quem não foi preso, para quem não foi torturado, para quem não perdeu alguém, para quem não precisou enterrar o marido com o caixão lacrado. Viver uma época não significa enxergá-la inteira. Estar nela não significa compreender todos os seus contextos. Minha mãe dizia, quando eu reclamava de um serviço doméstico, que não se vive em sociedade lavando apenas a própria louça. É disso que se trata. Há algo profundamente errado quando alguém atravessa a dor alheia sem ser tocado por ela. A incapacidade de se compadecer não é neutralidade. É falha emocional. É ausência de humanidade.
E veja só, nada mudou até os dias de hoje. Mais curioso ainda é saber que, se eu estivesse contando essa história naquela época, provavelmente eu já não estaria aqui para contar mais histórias. É isso que dói.
Manoel não virou estátua nem nome de avenida. Mas ajudou, com a própria morte, a expor a engrenagem. Em certas histórias, isso é o máximo de justiça que a História consegue oferecer.
Fagner Oliveira

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