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Carta de Backunin para Mathilde Reichel

 






Carta a Mathilde Reichel

Mikhail Bakunin

16 de Janeiro de 1850


Primeira edição: Konigstein, 16 de Janeiro de 1850. Le Réveil, Genéve, 3 de Julho de 1926.

Fonte: Coletivo de Estudos Anarquistas Domingos Passos
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.


No que concerne à minha vida aqui, posso descrevê-la muito simplesmente e em poucas palavras. Tenho um quarto muito limpo, quente e confortável, muita luz e pela janela eu vejo um pedaço de céu. Eu me levanto às sete horas da manhã e tomo café; em seguida, sento-me à minha mesa e exercito a matemática até o meio-dia. Ao meio-dia trazem-me o almoço. Após, jogo-me sobre o leito e leio Shakespeare um passeio; então colocam em mim uma corrente, provavelmente a fim de que eu não fuja, o que seria impossível mesmo sem isso, pois eu passeio entre duas baionetas, e uma fuga da fortaleza de Konigstein me parece impossível. Talvez isto seja também símbolo, para me fazer recordar, em minha solidão, os elos indivisíveis que unem cada indivíduo à humanidade inteira. De qualquer forma, enfeitado com esse artigo de luxo, caminho um pouco e admiro de longe as belezas da Suíça saxã. Meia-hora depois eu retorno, retiro meu enfeite e estudo inglês até as seis horas da tarde. Às seis horas, bebo chá e retomo a matemática até as nove e meia. Ainda que eu não tenha relógio, estou bem informado quanto a hora, pois um sino da torre a indica a cada quarto de hora e, às nove e meia, ressoa um clarim melancólico, cujo canto, semelhante à lamúria gemente de um amante infeliz, é um sinal de que é preciso apagar a luz e deitar. Eu não consigo, naturalmente, dormir logo em seguida e permaneço acordado habitualmente até meia-noite. Utilizo esse tempo a pensar em todos os tipos de coisas e particularmente em algumas pessoas amadas, cuja amizade me é tão cara. Os pensamentos são livres de qualquer fronteira, eles não são limitados por nenhuma muralha de fortaleza e assim vagam meus pensamentos em torno do mundo inteiro, até que eu consiga dormir. Todo dia se repete a mesma história. Como você vê, cara amiga, minha situação não é tão má, não me falta nada aqui, a não ser duas pequenas coisas que por si só são todo o valor da vida.

Minha vida interior é agora um livro lacrado por sete selos; não posso e não quero falar dela. Como eu disse, estou calmo, completamente calmo, e pronto a qualquer eventualidade. Ainda eu estou em ponto nulo, quer dizer, eu sou um ser unicamente pensante, ou seja, não vivente; pois entre pensar e ser, como a Alemanha aprendeu a sê-lo ultimamente, há, todavia, um imenso abismo.




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